Certa vez uma pessoa me disse que ao olhar para as próprias fotos depois de um tempo elas mudavam, "é preciso deixar as fotos amadurecerem" ela falou. No instante que ouvi isso, me deu uma sensação bonita, de perceber um "não dito" na fala da pessoa; refleti: "as fotos amadurecem? Elas realmente mudam?" e percebi que a boniteza estava no mudar da gente. O olhar que se tem sobre elas. Quem muda somos nós mesmos.
Achei bem curioso o relato, mas não consegui ir muito além do ser tocado pela fala das "fotos amadurecerem", mas daí por algum motivo (des)conhecido e após passo a passo de rolagens de dedo no scroll do meu computador, eu lembrei de um texto que escrevi há 3 anos e fui lê-lo. Me deparei com uma grata surpresa. Como de um vento refrescantes por dentro e ao mesmo tempo como se eu estivesse lendo a vida, ou o relato de uma outra pessoa que não-era-eu, ou era eu sim, era! Senti um estranhamento e uma familiaridade que dava essa sensação meio que boa, diferente.
Um outro em mim. Eu mudei com o tempo, ou melhor, com o que (não) vivi nele. O texto não mudou, estava intacto como finalizado há três anos atrás, mas eu sim e ao ler veio um desejo de alterar uma coisinha ou outra na escrita. Resisti! Me contentei em escrever um texto do eu-hoje mais abaixo e respeitar "aquela pessoa" que falou aquilo (me respeitar?1). Era como se durante a leitura eu admirasse uma paisagem que estava fora de mim, mas que na verdade estava se passando dentro, compreende? A admiração/estranheza, no mínimo. Como de um passado presente.
Talvez você já tenha escutado aquela ideia de que: vivemos várias vidas em uma só. Olha. Se pararmos para refletir, o nosso amanhã ao adeus pertence, pois estamos sempre a fechar ciclos e começar novos. E isso não está tanto no nosso controle quanto gostaríamos que estivesse. No nosso amanham é certo o adeus: de rotinas, funções que desempenhamos, pessoas do nosso hoje; tal como (re)conhecer outras pessoas (e até si mesmo), em novas rotinas, etc. Vamos fazendo isso até o nosso adeus final, que em uma verdade é o que dá sentido a todas as (part)idas anteriores.
No texto "A transitoriedade", Freud (o criador da psicanálise) aborda a forma como reagimos às mudanças que acontecem no decorrer da vida, que são inevitáveis. É um fato que essa etapa da vida que estamos vivendo agora irá acabar ou se modificar. Algumas pessoas ao ter consciência disso podem reagir com indiferença: "já que essa etapa que estou vivendo agora vai acabar, para quê me importar em vivê-la mesmo?", ou "não vou me aprofundar no relacionamento com essa pessoa já que vai acabar uma hora ou outra". Quem nunca pensou algo do tipo ou parecido? Às vezes em relação a (situações ou) pessoas que estão a despertar um certo encantamento em nós, a possibilidade de algo bom, mas logo pode vir o pensamento de perda futura.
Ainda nesse texto Freud traz a explicação de podermos reagir dessa forma - com indiferença - isso acontece como um mecanismo de defesa ao luto, isso por nosso psiquismo ter uma reação instintiva a evitar situações dolorosas. Para entender melhor podemos pensar numa pessoa que passou por uma desilusão amorosa e evita viver novos relacionamentos por medo (da possibilidade) da dor, ou até se pensarmos em alguém que pode evitar demonstrar carinho e afeto a pessoas que ama e (re)age com apatia, certo distanciamento. É uma espécie de escolha inconsciente do tipo: "não vou nutrir esse sentimento pois a perda virá e será ainda mais dolorosa de suportar", e faz com que a pessoa evite viver aquele momento ou relação.
Um adendo. Usar exemplos me traz certa preocupação com o leitor, pois podem suscitar certo tom de generalização, reduzir os multifatores que influenciam um comportamento ou uma formação do nosso inconsciente, mas vejo como uma maneira de tornar o conceito mais compreensível para nossa relação com a vida. Voltemos.
Em outras palavras: por uma certeza inconsciente podemos nos reagir com evitação ou indiferença como proteção a possível dor futura. Isso também está ligado à nossa fantasia de imortalidade das coisas, de que elas não acabam, é um tanto paradoxal! Suponhamos uma relação entre duas pessoas que dura por muitos e muitos anos, ainda assim essa relação experimentará muitas mudanças no seu decorrer. Podemos também entender essas questão com a mudança na vida como um não saber fazer contornos na falta, pois mudança está bem relacionada a perder algo, por mais que também se ganhe um outro algo (ou não).
É natural se sentir triste, angustiado diante de uma perda, porém a contemporaneidade tem colocado a felicidade como um imperativo a ser vivido, levando-nos a pensar que tem algo de errado em se sentir mal, quando na verdade (muitas das vezes) é só a vida acontecendo.
Ao fazermos as pazes com o jeito como lidamos com a falta na vida, talvez possamos enxergar o valor das coisas especialmente por serem passageiras, mutáveis. E daí passar a (mu)dançar melhor na vida. Ter movimento.
Um dos efeitos de uma análise é colocar a gente em contato com o real da vida, com a nossa condição faltante diante de (quase) tudo com o que nos relacionamos. E apesar disso e por isso, viver "bem"; a seu modo do que seja essa coisa. A psicanálise é também uma cura pelo amor (Freud, 1914).
(Sugestão de música: Epitáfio - Titãs)
Texto: (mu)danças e perdas, Abraão Lira.