top of page

Ansiedade por uma outra perspectiva

  • Foto do escritor: Abraão Lira
    Abraão Lira
  • 8 de mar. de 2024
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de mar. de 2024

Você já parou para pensar na ansiedade como um excesso do outro em si mesmo?

ree

Quando falo "ansiedade" aqui, não estou me referindo ao não conseguir dormir na noite anterior a uma viagem importante, ou daquela pressa e agitação que podemos sentir quando estamos atrasados para um compromisso. Essa é a emoção ansiedade presente em nós, tão natural quanto sentir raiva e alegria. Ela desempenha uma função adaptativa na nossa interação com o mundo.
Falo aqui de uma ansiedade que pode ser experienciada com grande desconforto e sofrimento: um excesso de pensamentos que surgem rapidamente e se sobrepoem sem regulação alguma, ou outros de teor negativo surgindo diante de alguma situação impedindo de fazer algo que se deseja, também cobrança excessiva em si mesmo, dentre outros exemplos que podem nos deprimir e dar a sensação de tirarmos os pés da nossa própria vida.
Talvez o mais angustiante seja saber que esses pensamentos são produzidos por nós mesmos, não vêm de fora para nos dar a oportunidade de evitá-los. Ao mesmo tempo é como se fosse um "outro" dentro da nossa cabeça, ele aparece e não é tão reconhecido como algo de nós mesmos, há um estranhamento na experiência de encontrá-lo. Mas vêm as questões: como esse "outro" foi parar aí? Por que esses pensamentos apenas aparecem sem que sequer haja escolha? Por que afetam tanto?
Para refletir sobre isso precisamos voltar a questões primárias sobre nós. Vamos nessa?!
A espécie humana é marcada por precisar de um outro ser humano para conseguir sobreviver no início da vida, diferente de um bezerro ou um potro por exemplo, que tempo depois de nascer já se ergue e caminha, possuem grau de independência bem superior se comparados com um bebê humano, no qual se nascer é só deixá-lo que não vinga na vida, morre. Precisamos de um outro que dedique tempo e energia de sua própria vida a nós; é esse outro que vai nos nutrir fisicamente para sobreviver e mais, nutrir de afeto e nos introduzir na linguagem. A esse outro geralmente nomeamos como mãe e pai, os grandes primeiros amores de nossas vidas que marcam significativamente nosso psiquismo.

ree
Aos pais investirem energia no bebê não se tem apenas um cuidado com as necessidades físicas dele, mas nesse processo eles também vão introduzindo a criança na cultura. Nós não nascemos seres humanos, nascemos com um aparelho biológico e estrutura neurológica que nos torna candidatos à raça humana, porém o que nos torna humanos é ser inserido por outra(s) pessoa(s) na própria humanidade, através de um conjunto de comportamentos, afetos e valores nos quais são (quase para) todos atravessados pela linguagem.
Nesse processo há uma questão curiosa, os cuidadores passam para a criança muito do que eles próprios entendem do mundo, de como foram construídos (e se modificaram) a partir de suas próprias experiências. Pensando por essa linha, não escolhemos uma grande parte daquilo que há em nós. Somos antecedidos por outras pessoas (com seus desejos) e por uma grande cultura. Somos seres partidos, no sentido de sermos sempre atravessados pelo outro desde o início de nossa constituição e continuamos sendo no nosso dia-a-dia. Mesmo que nos isolemos de todos, não podemos ficar sozinhos completamente, há sempre uma linguagem em (quase todos) nós, a qual aparece nos nossos pensamentos, que por sua vez surgem como alguns desses "outros" que passaram por nossa vida.
Ou seja, pelo processo que passamos para nos tornarmos humanos é intrínseco o estar voltado a outros seres humanos, é meio que indissociável. No entanto pode-se falar de um ponto de equilíbrio nessa questão, pois é fato que se não conseguirmos encontrar algo do nosso (próprio) desejo e vivê-lo, adoecemos. Ou seja, se há um excesso de vontade das outras pessoas na minha vida, de opiniões das outras pessoas guiando minhas decisões, há uma boa chance de que eu experimente sofrimento.
Um exemplo desse estar com um excesso do outro é: imagine que uma pessoa está se arrumando para ir a uma ocasião social (uma festa) e há uma roupa que ela gosta muito e que se sentiria muito bem em estar vestindo, mas sem se dar conta começam a vir pensamentos que dizem que as outras pessoas vão julgá-la mal ou achar feia sua vestimenta; pensamentos que podem chegar a um nível de influência que até pode fazer com que ela desista de sair. Isso pelo alto nível de sofrimento experienciado.
Sobre equilíbrio, é natural haver um pensamento que surja voltado para as outras pessoas, seja ele qual for, mas se eles têm um poder tamanho a ponto de barrar, apartar a pessoa de viver o próprio desejo (nesse caso ir à festa que queria com a roupa que gosta), muito certamente haverá uma vivência de sofrimento.
É difícil encontrar alguém que não tenha passado por algo parecido com a situação do exemplo, no qual se refere a uma ansiedade que paralisa o sujeito e ainda para algumas pessoas pode ser vivida com frequência e há um longo tempo.

ree
No processo terapêutico a pessoa pode encontrar um ponto de equilíbrio nas suas relações com os outros e mais importante, com esse "outro" que há em sua própria mente, que também é si próprio. Pode reconhecer a forma que foi construída no decorrer de sua vida e fazer outros caminhos de sentido na forma como foi introduzida na linguagem e na cultura, isso pode levar a pessoa a viver mais do que deseja. Um grande exemplo de influência cultural é o machismo, que traz sofrimento a mulheres, homens (e outros), ao estabelecer influência (como um "grande outro" - conceito lacaniano) na forma de se enxergarem no mundo e de como-devem-desejar. A terapia conduz a pessoa a encontrar um lugar mais seu no mundo e sem tantos excessos de outro em si.

Texto: Ansiedade por uma outra perspectiva, Abraão Lira.




 
 
bottom of page